O cérebro e o computador

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por
Adriano Pasqualotti

Neste texto, fez-se uma reflexão sobre a visão que os autores Maturana/Varela e Morin têm sobre a relação cérebro/computador. Procurou-se descrever os pontos nos quais as considerações dos autores convergem.

Para Maturana/Varela, a metáfora do cérebro como um computador é equivocada, pois nesse caso seria necessário definir o sistema nervoso como um unidade que interage por meio de entradas e saídas. Os autores definem o cérebro como "[...] uma unidade definida por suas relações internas, nas quais as interações só atuam modulando sua dinâmica estrutural". Segundo Maturana/Varela, o sistema nervoso "[...] constrói um mundo, ao especificar quais configurações do meio são perturbações e que mudanças estas desencadeiam no organismo".

O funcionamento nervoso é um ponto claramente destacado no texto, e que foi chamado pelos autores de clausura operacional. Para Maturana/Varela, não é possível dicotomizar o funcionamento do cérebro como sendo ou representacionista ou solipsista. Para classificar o sistema nervoso como representacionista seria necessário admitir, por exemplo, que não é o seu estado estrutural que especifica quais as perturbações que são possíveis as interações com o meio. Da mesma forma, não é possível classificar o sistema nervoso como sendo solipsista, pois, para isso teria que se admitir, por exemplo, que mesmo o cérebro sendo parte de um organismo, ele não participa das interações com o meio, o que obviamente é um absurdo.

Morin discute em seu texto, as diferenças e semelhanças que são possíveis de se fazer ao comparar o cérebro humano com um computador. Ele inicia indicando que com a tecnologia atual não é possível construir uma máquina dotada de emoção; já a mente humana é "[...] inerente a um ser dotado de sensibilidade, de afetividade e de autoconsciência".

Para o autor, não é absurdo admitir que o computador, ao processar dados por meio de disjunção ou conjunção, possui uma inteligência, mesmo que definida como inteligência artificial. Ao contrário do computador, a mente/cérebro, não se limita à computação, mas interage essa ao pensamento.

Os computadores são definidos como sendo ou digitais ou analógicos. As máquinas digitais são caracterizadas por realizarem operações binárias; já as analógicas caracterizam-se por realizarem operações com infinitos valores em um intervalo definido. O cérebro humano, ao contrário, combina os processos analógicos e digitais, pois, "[...] é preciso associa-los para captar a originalidade do espírito humano".

A seguir, encontram-se na íntegra os textos sobre a relação "cérebro/computador".

O cérebro e o computador de acordo com Matura e Varela (2001, p. 188)

"[...]

É interessante notar que a c1ausura operacional do sistema nervoso nos diz que seu funcionamento não cai em nenhum dos extremos: nem o representacionista nem o solipsista.

O sistema nervoso não é solipsista porque, como parte do organismo, participa das interações deste com o seu meio, que nele desencadeia continuamente mudanças estruturais que modulam sua dinâmica de estados. De fato, é fundamentalmente por isso que nós, como observadores, temos a impressão de que as condutas animais são, em geral, adequadas às suas circunstâncias. Eles não se comportam como se estivessem seguindo sua própria determinação, independentemente do meio. Isso ocorre assim, embora para o. funcionamento do sistema nervoso não exista o fora nem o dentro, mas sim a manutenção de correlações próprias que estão em contínua mudança.

[...] O sistema nervoso também não é representacionista, porque em cada intera, é seu estado estrutural que especifica quais as perturbações que são possíveis, e que mudanças elas podem desencadear em sua dinâmica de estados. Seria um erro, portanto, definir o sistema nervoso como tendo entradas ou saídas, no sentido tradicional. Isso significaria que tais entradas e saídas tomariam parte na definição do sistema, como acontece com o computador e outras máquinas produzidas pela engenharia. Fazer isso é inteiramente razoável quando projetamos uma máquina na qual o principal é saber como queremos interagir com ela. Mas o sistema nervoso (ou organismo) não foi projetado por ninguém: é o resultado da deriva filogenética de unidades centradas em sua própria dinâmica de estados. Assim, o adequado é reconhece-lo como uma unidade definida por suas relações internas, nas quais as interações sé atuam modulando sua dinâmica estrutural, isto é, como uma unidade dotada, clausura operacional. Dito de outro modo: sistema nervoso não "capta informações" do meio, como freqüentemente se diz. Ao contrário, ele constrói um mundo, ao especificar quais configurações do meio são perturbações e que mudanças estas desencadeiam no organismo. A metáfora tão em voga do cérebro como um computador não só é ambígua como está francamente equivocada.

[...]"

O cérebro e o computador, segundo Morin (2001, p. 97-101)

"[...]

O computador foi comparado à mente/cérebro humano. Essa comparação revela as diferenças e as analogias.

O computador é o cérebro são duas máquinas, mas uma é produzida, fabricada, organizada pela mente humana, saída de uma máquina cerebral inerente a um ser dotado de sensibilidade, de afetividade e de autoconsciência. Nenhum espírito emerge do computador, mesmo numa cultura; já o cérebro tem a capacidade, pela mente, de reconhecer-se como máquina e mesmo de saber que é mais do que uma máquina.

Contudo, a despeito dessas diferenças radicais, o computador é capaz de realizar performances sobre-humanas de cálculo, operações lógicas, refutações, raciocínios por tentativa e erro, por retroação, por referência a casos. Ainda mais, como o cérebro humano, o computador compute[1] procedendo por disjunção e conjunção. Neste sentido, a palavra inteligência não é abusiva: há uma inteligência artificial. Mas a inteligência artificial limita-se à computação, enquanto a mente humana integra a computação cerebral na cogitação, ou seja, no pensamento.

O cérebro é uma máquina bio-químico-elétrica. Ao contrário do computador, a mente/cérebro trabalha num jogo combinando precisão e imprecisão, incerteza e rigor, e cruza rememoração, computação, cogitação. Como é extraordinariamente complexo, o espírito/cérebro trabalha com, por e contra o ruído[2], o que acarreta riscos enorme de erros, de ilusões, de loucura, mas também chances prodigiosas de invenção e de criação.

O cérebro diferencia-se dos computadores digitais, embora realize operações binárias, e dos computadores analógicos, embora crie e utilize analogias (diferentes, de resto, das utilizadas pelos computadores analógicos).

O espírito/cérebro combina, de modo permanente, os processos digitais e os processos analógicos. Essas duas qualidades parecem logicamente incompatíveis, da mesma forma que, para a partícula microfísica, a qualidade da onda e a qualidade do corpúsculo. Contudo é preciso associá-los para captar a originalidade do espírito humano.

O digital separa, divide, discerne, localiza, mede e desenvolve o campo do divisível, do que se pode discernir, do separável, de localizável, do mensurável. A analogia liga, associa, conecta, justapõe e desenvolve o campo das evocações, das sugestões, das reaproximações, das relações.

“A analogia, tomada no sentido amplo, junto com sua prima, a semelhança (ou a similaridade), é certamente o suporte de numerosas atividades cognitivas automáticas e não estou longe de pensar que se a de um dos determinantes fundamentais do funcionamento cognitivo”. O processo analógico realiza-se como ondas percorrendo os diversos campos da mente, transportando de um domínio para outro imagens, noções, modelos, conforme o sentido literal da palavra metáfora: carregar para além de. A metáfora dispõe de virtudes quase sempre desconhecidas: é um “indicador de uma não-linearidade, de uma abertura do texto ou do pensamento para diversas interpretações por ecoar nas idéias pessoais de um leitor ou de interlocutor”.

Um jogo combinado de metáforas pode trazer mais conhecimentos do que um cálculo ou uma denotação; assim, as metáforas de um enólogo, evocando o corpo, o frutado, o buquê, a perna, o nariz, o aveludado, e designando os aromas por analogias, descrevem de maneira, ao mesmo tempo, mais precisa, mais concreta e mais sensível as qualidades de um vinho que as análises moleculares e as proporções químicas. Antonio Machado dizia que “uma metáfora tem tanto valor cognitivo quanto um conceito e, às vezes, mais”. E Paul Ricoeur: “Tratada como atribuição bizarra, impertinente, a metáfora deixa de figurar como ornamento retórico ou de curiosidade lingüística para fornecer a ilustração mais explosiva do poder da linguagem de criar ido através de reaproximações inéditas”.

A analogia desenvolve-se em duas vias. Uma abstrata e racional, apareceu entre os antigos gregos para designar, numa análise de racionalidade, a igualdade de duas relações matemáticas. A segunda vai de semelhança em semelhança para estabelecer parentescos entidades. A multiplicação de situações ou de acontecimentos análogos conduz à indução, um modo de conhecimento animal, humano e científico. O estabelecimento de analogias organizacionais e funcionais, como o feed-back negativo, em entidades de natureza diferente (máquinas artificiais, seres vivos, sociedades), é incontestavelmente racional.

Nestes últimos casos, a analogia é controlada e não identifica com as outras as entidades de natureza diferente. Em contrapartida, no pensamento poético ou mitológico, a analogia estabelece, onde a lógica separa, ligações e identificações. O sol, por exemplo, é um carro que, surgindo no Oriente, termina sua corrida no céu chegando ao Ocidente. O mundo animal é visto em analogia com o mundo humano e reciprocamente. Os relâmpagos, a erupção de um vulcão, são a cólera de um deus. A correspondência especular do microcosmo (humano) e do macrocosmo exprime o alicerce analógico do pensamento mitológico.

As antigas analogias mitológicas não fazem mais parte das crenças contemporâneas, mas permanecem vivas em nossos afetos, em nossos estados de alma e em nossa poesia. Nossa linguagem está repleta de transferências analógicas de um domínio para outro, tornadas quase imperceptíveis (o nascer do sol, as raízes do mal, a ec1osão do amor). A compreensão de pessoa a pessoa faz-se por projeção de si no outro, identificação com o outro, num vivido analógico em que o outro ego alter, toma-se alterego. O próprio conhecimento científico, que na sua fase simplificadora quis e pensou ter expulsado a analogia, utilizou-a, contra sua própria vontade (a “seleção” natural, as “leis” da natureza). Como já mostramos, a racionalidade pratica a analogia mesmo submetendo-a a exames e verificações. É nos pensamentos poético e mitológico que a analogia atinge o apogeu...

Cabe acrescentar que a aptidão mimética, própria do espírito humano, toma-nos psiquicamente análogos ao que imitamos (rever capítulo 2), o que leva a uma espécie de possessão do imitador pelo imitado. Por isso, alguns atribuíram a xamãs, em estado de possessão mimética, o verismo cativante das pinturas de animais de grotas pré-históricas, como em Chauvet e Lascaux.

O digital separa o que é ligado; o analógico une o separado. A comp1ementaridade permanente assegura e fecunda o conhecimento. A mente humana, que trata o separável e o não-separável, pode discernir os limites de um conhecimento consagrado somente ao divisível e ao separável, reconhecer as incertezas de um conhecimento que só se mobiliza na analogia e tratar a complexidade, em que o separável e o inseparável são inseparáveis.

Há, da mesma forma, duas linguagens ligadas na linguagem; uma que denota, objetiva, calcula, baseia-se na lógica do terceiro excluído; outra que conota (evoca o halo de significações contextuais em tomo de cada palavra ou exposição), baseia-se na analogia, tende a exprimir afetividade e subjetividade. As duas linguagens formam um só em nossa linguagem cotidiana. Uma das riquezas extraordinárias da língua é que ela combina as linguagens e traduz assim a complexidade racional/afetiva do ser humano. Quando se pretende, sobretudo racional, o discurso desenvolve-se sob um forte controle empírico e lógico, tende a reduzir seus elementos analógicos a comparações, seus elementos simbólicos a signos ou convenções. Quando se pretende prático, o discurso deixa-se levar pela música das palavras, pelas assonâncias, as imagens (mas não exclui, de modo algum, o controle).

Primeira Linguagem

Segunda Linguagem

Dominância da disjunção
Disjunção real/imaginário
Convencionalizaçao das palavras
Irrealização das imagens
Reificação das coisas
Isolamento e tratamentotécnico dos objetos

Forte controle empírico exterior
Forte controle lógico do analógico
Pan-objetivismo
Dominância da conjunção
Conjunção real/imaginário
Reificação daspalavras
Reificação das imagens
Fluidez das coisas, possibilidade de metamorfoses
Tratamento mágico dos objetos; relações analógicas
entre objetos
Forte controle do vivido interior
Forte controle analógico do lógico
Pan-subjetivismo

Uma palavra pode ser apenas signo. O signo depende do modo instrumental de conhecimento; indica friamente a natureza do que designa. Pode não ser apenas signo, mas também símbolo. O símbolo evoca e, em certo sentido, contém a presença do que significa. É um concentrado de presença concreta e comporta uma relação de identidade com o que simboliza; pode ser pleno de afetividade, de amor, de ódio, de adoração, de execração. Assim, adora-se e venera-se a bandeira simbolizando a pátria; pisoteia-se ou queima-se a bandeira do inimigo, pisoteando ou queimando, num ato analógico, o próprio inimigo.

Os pensamentos mítico e mágico alimentam-se de símbolos, não apenas no sentido indicativo do termo, em que o símbolo identifica-se contém com o signo, mas no sentido quase mágico em que o símbolo contém a presença afetiva, mística, do que simboliza (a cruz). Existe um pensamento simbólico/mítico/mágico em todas as civilizações.

[...]"

Referências

MATURANA, Humberto R.; VARELA, Francisco J. A árvore do conhecimento: as bases biológicas da compreensão humana. Trad. Humberto Mariotti; Lia Diskn. 2ª ed. São Paulo: Palas Athena, 2001.

MORIN, Edgar. O método 5: a humanidade da humanidade. Trad. Juremir Machado da Silva. 2ª ed. Porto Alegre: Sulina, 2003.



[1] Do latim computatio, ação de calcular junto, com-parar, com-frontar, compreender. “A computação é uma atividade de caráter cognitivo, operando sobre signos e símbolos que separa e/ou liga; comporta uma instância informacional, uma instância simbólica, uma instância de memória e uma instância de programa” (Cf. Méthode 3, pp.36-51). A computação dos computadores pode exercer funções cognitivas como reconhecer formas, diagnosticar, raciocinar, elaborar estratégias combinando cálculo lógico é método heurístico (por exemplo, por tentativa e erro). Pode inclusive demonstrar teoremas ou fazer descobertas: As operações lógicas derivam de computações, que derivam, em retorno, das operações lógicas. Uma atividade computante é inerente não apenas à atividade cerebral, mas também à auto-organização viva, inclusive celular, mas dispõe de qualidades e de especificidades desconhecidas do computador. Assim, o unicelular é, de modo indiferenciado, ao mesmo tempo, um ser, um ente, uma máquina e um computador. Computa a sua própria organização, via os circuitos DNA-RNA-proteínas, transforma em informações estímulos externos e pratica um certo conhecimento do seu meio em função de regras e de princípios específicos. Mas se trata de um cômputo, computação egocêntrica que se realiza a partir de si, em função de si, para si e sobre si, comportando uma computação da sua própria computação. O cômputo, gerado e regenerado pela auto-organização do ser Vivo, gera-a e regenera-a, incessantemente, exercendo, ao mesmo tempo, a sua atividade cognitiva sobre o seu mundo exterior. A noção de cômputo permite conceber o fundamento bio-lógico do sujeito.

[2] Termo da teoria da comunicação. “Chama-se ruído qualquer perturbação aleatória que interfira numa comunicação de informações e, através disso, degrade a mensagem, tornando-se errada. O ruído é, logo, uma desordem que, desorganizando a mensagm, torna-se fonte de erros”.