A teoria de Piaget sobre a linguagem e o pensamento da criança

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por
Adriano Pasqualotti

Neste texto, descreve-se uma reflexão sobre o artigo de Vigotsky "A teoria de Piaget sobre a linguagem e o pensamento da criança", no qual ele faz uma crítica em relação aos dois primeiros livros de Piaget. Procura descrever os pontos nos quais Vigotsky diverge em relação à teoria de Piaget, bem como aqueles que ele apóia e indica a razão. O que Vigotsky escreve no artigo sobre as primeiras formulações de Piaget não se aplica às obras posteriores. Nesse sentido, procura-se indicar os motivos pelos quais a crítica deve ser mensurada exclusivamente para as obras que Vigotsky teve acesso naquela época.

Vigotsky inicia o texto descrevendo a importância de Piaget para a psicologia. Fica claro no texto que Vigotsky reconhece em Piaget diferenças fundamentais na postura de um grande pesquisador, indicando que uma das suas principais colaborações para a ciência é o estudo que ele realizou sobre o pensamento infantil.

Vigotsky mostra-se preocupado pela situação com que a psicologia passava naquela época, ao enfatizar que todas as obras sofrem de uma dualidade. Entretanto, Vigotsky descreve que Piaget escapa dessa dualidade quando se preocupa em deter-se aos fatos, no lugar das premissas metodológicas e teóricas. Nesse sentido, parece que isso se deve ao método que Piaget usa para investigar - método clínico.

A pedra angular da teoria de Piaget, segundo Vigotsky, é o egocentrismo do pensamento infantil, o qual ocupa "uma posição genética, estrutural e funcionalmente intermediária entre o pensamento autístico e o pensamento dirigido". (Vigotsky, 1998, p. 14). Vigotsky procura analisar os fatos que levaram Piaget a aceitar a hipótese do egocentrismo como ponto fundamental de sua teoria, bem como, coloca esses fatos à prova, comparando-os com os resultados que ele obteve em suas próprias pesquisas.

Para Vigotsky o ponto fundamental da teoria de Piaget é o uso que a acriança dá para a linguagem, a qual pode ser dividida em fala egocêntrica e fala socializada. Ambos os autores descrevem que na fala egocêntrica a criança não tenta se comunicar, pois, o que ela simplesmente faz é um comentário em voz alta do que está fazendo.

Entretanto, eles discordam com relação à função da fala egocêntrica no comportamento da criança, pois, para Piaget, a fala egocêntrica não cumpre nenhuma função verdadeiramente útil; já Vigotsky, acredita que a fala egocêntrica assume um papel definido e importante. Outro ponto de discordância entre os autores refere-se ao desaparecimento ou transformação de fala egocêntrica, pois, Piaget descreve que a fala egocêntrica simplesmente desaparece. Ao contrário de Vigotsky afirma: "a fala egocêntrica não se atrofia simplesmente, mas ‘se esconde’, isto é, transforma-se em fala interior". (Vigotsky, 1998, p. 22)

Com relação a fala social, os dois pesquisadores discordam profundamente, pois, de acordo com Vigotsky, para Piaget a "a fala social é representada como sendo subseqüente, e não anterior à fala egocêntrica" (1998, p. 22). Entretanto, nos estudos de Vigotsky, há uma inversão, pois, para Vigotsky o desenvolvimento evolui da fala social para egocêntrica, uma vez que a "a função primordial da fala, tanto nas crianças quanto nos adulto, é a comunicação, o contato social. A fala mais primitiva da criança é, portanto, essencialmente social" (1998, p. 23). Em outras palavras, o que Vigotsky descreve em suas pesquisas é que o desenvolvimento do pensamento vai do social para o individual. Porém, segundo a interpretação de Vigotsky os seus resultados divergem tanto do esquema de Piaget quanto do esquema behaviorista, pois, segundo Vigotsky, no esquema de Piaget o desenvolvimento do pensamento na criança "parte do pensamento autístico não-verbal à fala socializada e ao pensamento lógico, através do pensamento e da fala egocêntricos" (1998, p. 24). Já no esquema behaviorista o desenvolvimento parte da fala oral, após utilizar o sussurro, para chegar à fala interior.

Para finalizar, o que se percebe ao analisar o texto é que Vigotsky considera as pesquisas de Piaget como fundamentais para a psicologia, porém, há divergências fundamentais nos resultados encontrados pelos dois autores. Entretanto, como foi dito anteriormente, as críticas de Vigotsky devem ser aceitas exclusivamente para as duas obras que ele analisou - o próprio Piaget quando tece acesso ao texto escrito por Vigotsky concordou com as suas críticas. Por outro lado, ao se analisar as demais pesquisas desenvolvidas por Piaget, percebe-se que as críticas de Vigotsky não teriam mais fundamento.

Referências

VIGOTSKY, Lev Semenovitch. Pensamento e Linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
_____, A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
VIGOTSKY, Lev Semenovitch; LURIA, Alexander Romanovitch; LEONTIEV, Alex N. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. São Paulo: Ícones, 1988.



[1] Os dois livros de Piaget que Vigotsky analisou são:
   
PIAJET, J. Le langage et la pensée chez l’enfant. Neuchântel-Paris: Delachaux & Niestlé, 1923.
    _____. Le jugement et le raisonnement chez chez l’enfant. Neuchântel-Paris: Delachaux & Niestlé, 1924.

[2] As obras que Vigostky publicou os seus próprios resultados são:
   
VIGOTSKY, L.; LURIA, A.; LEONTIEV, A.; LEVINA, R. et al. Estudos sobre a fala egocêntrica. Não publicados.
    VIGOTSKY, L.; LURIA, A. The function and fate of egocentric speech. Proceed. of the Ninth Intern. Congr. of
    Psychol. (New Haven, 1929). Princeton, Psychol. Rev. Company, 1930.